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SOBRE O MITO CALIPSO E ULISSES

Amigos, ao falar sobre o meu romance, tenho também que contar um pouco sobre duas passagens da mitologia grega: a Ilíada, de Homero, que conta a história da guerra de Tróia, e a Odisséia, do mesmo autor, que fala sobre a tentativa do herói Ulisses de retornar à sua casa após a guerra. Não farei uma cópia fiel da mitologia, mas uma releitura bem-humorada e em estilo diferente daquele que utilizo em Calipso e Ulisses, no qual busco uma linguagem mais poética.

Menelau, um rei grego, era casado com Helena, a mulher mais bela do mundo. Um dia, Páris, príncipe troiano, conhece a beldade e se apaixona perdidamente por ela. Como naquela época, creio eu, não havia divórcio, Páris resolve raptá-la e levá-la para Tróia, cidade-estado litorânea, cercada por muros indestrutíveis erguidos pelo próprio deus Poseidon.

O rei Agamenon, irmão de Menelau, não poderia tolerar uma afronta dessas contra a honra de sua família, e ao declarar guerra a Tróia, recebe o apoio dos mais importantes heróis gregos como Aquiles, de força descomunal e quase invencível, e de Ulisses, inteligente e o mais astuto entre eles.

Depois de percorrer uma boa distância nos mares perigosos da mitologia, chegam até a cidade inimiga, mas durante dez anos não conseguem invadi-la. Quando estão quase desistindo da guerra, eis que Ulisses tem uma idéia brilhante: eles escondem suas embarcações e fabricam um enorme cavalo de madeira, que deixam às portas da cidade. Os troianos, acreditando que os gregos tinham desistido e voltado para casa em seus navios, levam o cavalo para dentro das muralhas, como presente de guerra, e festejam e bebem à noite toda comemorando a aparente vitória. Mas a verdade é que Ulisses e seus homens estavam escondidos dentro do cavalo, e quando os troianos já tinham “enchido a cara”, tornou-se fácil derrotá-los. É daí que vem a expressão “presente de grego”.

Missão cumprida para Ulisses, eis que tudo o que ele deseja é voltar para sua casa, na ilha de Ítaca, onde tinha deixado a esposa, Penélope, e o filho Telêmaco. Mas como ele estava “se achando”, pensou que poderia desprezar o deus dos mares, Poseidon. Leitores, aprendam uma lição: nunca desafiem os deuses gregos, pois eles são iguais aos humanos em muitas coisas, principalmente nos defeitos, e Poseidon tinha um defeito terrível: também não levava desaforo para casa.

Assim, o rancoroso Poseidon decidiu que Ulisses não voltaria para casa e comeria o pão que o Hades amassou antes de morrer. O deus mandou naufrágios, monstros marinhos de diferentes tipos, sereias de cantos mortíferos, gigantes ciclopes comedores de gente, e outras coisas mais. Os tripulantes de Ulisses morriam aos montes, mas o bonitão sempre escapava, graças a ajuda da deusa Atena, sua protetora. Depois de um naufrágio, ele foi parar, mais morto que vivo, na ilha da belíssima ninfa Calipso. Filha do Oceano, era imortal, mas como eu disse, os deuses gregos são muito parecidos conosco, e Calipso era uma mulher que amava demais. Ficou obcecada por Ulisses, mas fingia não perceber que o herói queria mesmo era voltar para casa e para a esposa.

Calipso só o deixou ir embora depois que Atena pediu a intercessão do próprio Zeus, deus dos deuses. A ninfa concorda a contragosto com a volta de Ulisses, e até oferece material para que ele faça uma espécie de jangada, mas antes ainda tenta uma última sedução: oferece a ele a imortalidade, caso fique com ela. Penso que Ulisses deve ter ficado tentado com a possibilidade de viver uma vida eterna de delícias, mas por fim, decidiu viver a vida humana, com tudo de bom e de dor que ela poderia lhe oferecer. Talvez o inesperado seja mais tentador que o tédio de dias sempre iguais.

Comentários à parte, voltemos à história. Ulisses segue em sua jangada, enquanto em sua casa pretendentes inebriados de luxúria por sua fortuna e sua esposa disputam entre si o direito de desposar Penélope e ficar com suas posses. A pobrezinha, apaixonada pelo marido, acreditava que ele ainda vivia, e utilizando de uma astúcia proporcional a de Ulisses, diz aos malvados que só se casará depois que tecer uma mortalha para o sogro. Os tolinhos concordam, mas não sabem que Penélope, à noite, desmancha todo o trabalho que fazia durante o dia e, assim, a mortalha nunca ficava pronta. Ela conseguiu enganá-los durante muito tempo, mas finalmente eles se cansaram da espera e a obrigaram a escolher outro marido. Penélope, sem ter forças para enfrentá-los, decide que se casará com quem atingir, com um arco, um alvo determinado. Enquanto isso, Ulisses, avisado dos acontecimentos por Atena, se disfarça de velho com a ajuda dela e vai até sua casa, onde a disputa final vai se travar pela posse de Penélope.

O velho pede uma chance de atirar o arco, é escarnecido por todos, mas atinge o alvo e revela sua identidade. Então, com a ajuda do filho, mata todos os pretendentes e toma de volta o que é seu.

Podemos dizer então que Ulisses e Penélope foram mesmo felizes para sempre, pois essa história já tem mais de 2500 anos, e foi contada e recontada de diferentes formas e por diferentes autores. Eu mesma fiz a minha releitura de parte da Ilíada, e meu personagem Olavo, como vocês perceberão quando lerem o livro, tem uma visão muito diferente e particular das personagens Ulisses e Calipso.

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